Compreender o comportamento eleitoral brasileiro exige ir além do mapa de cores por estado. Este artigo apresenta uma análise quantitativa de padrões de votação em unidades territoriais com mais de 200 mil eleitores, combinando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com indicadores do IBGE sobre renda, densidade demográfica e composição etária.
Escopo e recorte territorial
Analisamos quatro ciclos eleitorais: eleições gerais de 2018 e 2022, e eleições municipais de 2020 e 2024. O recorte inclui todas as capitais e 48 municípios selecionados por critérios de população (entre 200 mil e 800 mil habitantes) e distribuição geográfica equilibrada entre macrorregiões.
Para cada município, calculamos índices de concentração de voto no candidato vencedor, taxa de transferência de preferências entre turnos e correlação entre resultado eleitoral e variáveis socioeconômicas em nível de zona eleitoral. Dados de renda por zona foram estimados a partir de setores censitários do Censo 2022.
Padrões de concentração e volatilidade
As capitais do Nordeste apresentam os maiores índices de concentração de voto em eleições municipais, com vencedores frequentemente ultrapassando 55% dos votos válidos já no primeiro turno. No Sudeste, a fragmentação partidária eleva a probabilidade de segundo turno: em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a disputa municipal raramente se resolve na primeira votação.
A volatilidade — medida como variação percentual no desempenho do partido do prefeito entre eleições consecutivas — é significativamente maior em cidades médias do Centro-Oeste e do Norte do que nas capitais do Sul.
Esse achado sugere que dinâmicas locais — alianças regionais, presença de agronegócio, migração interna — exercem influência mais direta sobre resultados do que a polarização nacional observada em eleições presidenciais.
Demografia e comportamento de voto
O cruzamento com variáveis demográficas revela associações que merecem cautela interpretativa. Zonas eleitorais com maior proporção de população entre 18 e 29 anos tendem a apresentar maior volatilidade entre ciclos, possivelmente refletindo menor fidelidade partidária e maior sensibilidade a candidaturas novas. Já áreas com envelhecimento populacional acentuado mostram maior estabilidade, embora isso não implique homogeneidade de preferências.
A renda mediana por zona eleitoral correlaciona-se de forma moderada com determinados padrões de votação em eleições gerais, mas a relação se enfraquece em disputas municipais, onde avaliação de gestão local e entrega de serviços parecem predominar. Essa distinção reforça a necessidade de analisar cada tipo de eleição com modelos específicos.
Limitações e próximos passos
Esta análise não pretende prever resultados futuros nem estabelecer relações causais entre variáveis demográficas e escolhas eleitorais. Correlações observadas podem refletir fatores não incluídos no modelo, como cobertura de mídia local, escândalos de corrupção ou mobilização religiosa.
Próximas etapas incluem incorporar dados de redes sociais como proxy de exposição a campanhas digitais e expandir o recorte para municípios entre 100 e 200 mil habitantes. Os microdados utilizados estão documentados e podem ser solicitados para fins acadêmicos via [email protected].
Atualizado em 11 de junho de 2026 — correção de tabela de volatilidade no Centro-Oeste.